1960* O TERROR HOLLYWOODIANO DOS ANOS 1960 COMO EXPRESSÃO DAS ANSIEDADES SOCIOCULTURAIS
- Sebastian Gomez

- 17 de fev.
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Resumo
O presente artigo analisa o cinema de terror hollywoodiano da década de 1960 como dispositivo simbólico de representação das ansiedades socioculturais norte-americanas. Sustenta-se que o período marca uma inflexão histórica no gênero, caracterizada pelo deslocamento do horror sobrenatural para o psicológico e o social. A partir da análise de obras como Psycho, de Alfred Hitchcock, The Haunting, de Robert Wise, Rosemary's Baby, de Roman Polanski, e Night of the Living Dead, de George A. Romero, o estudo articula contribuições teóricas de Robin Wood, Noel Carroll e Laura Mulvey para demonstrar que o terror dos anos 1960 operou como espaço de elaboração simbólica de tensões relativas à família nuclear, ao gênero, à raça e à autoridade institucional. Conclui-se que o horror do período não apenas refletiu seu contexto histórico, mas contribuiu para redefinir os limites estéticos e ideológicos do cinema de gênero.
Palavras-chave: cinema de terror; anos 1960; horror psicológico; cultura norte-americana; análise fílmica.
1. Introdução
A década de 1960 constitui um momento decisivo na história do cinema de terror hollywoodiano. Diferentemente das produções das décadas anteriores — marcadas por monstros góticos e ameaças externas — o horror passa a explorar conflitos internos, distúrbios psíquicos e tensões sociais latentes.
Esse deslocamento ocorre em um contexto histórico marcado pela Guerra Fria, pelo movimento dos direitos civis, pelo avanço do feminismo de segunda onda e pela crescente desconfiança nas instituições políticas. O cinema de terror, nesse cenário, torna-se espaço privilegiado para a dramatização simbólica dessas inquietações.
2. Fundamentação Teórica

Segundo Wood (1986), o horror funciona como “retorno do reprimido”, isto é, como manifestação simbólica daquilo que a sociedade tenta suprimir. O monstro encarna aquilo que ameaça a ordem ideológica dominante.
Carroll (1990), por sua vez, argumenta que o horror moderno reorganiza o medo a partir da perturbação cognitiva e moral, enfatizando a anomalia em vez da pura alteridade sobrenatural.
No campo dos estudos de gênero, Mulvey (1975) demonstra como o cinema clássico organiza o olhar a partir de uma lógica patriarcal, questão fundamental para compreender as representações femininas no terror dos anos 1960.
3. Análise Fílmica
3.1 Psicose e a crise da família nuclear
Psycho inaugura uma nova configuração do medo ao apresentar um antagonista cuja monstruosidade é psicológica. Norman Bates simboliza a falência da estrutura familiar idealizada no pós-guerra.
O espaço doméstico deixa de ser refúgio e torna-se locus de violência. O terror emerge da fragmentação identitária, refletindo inseguranças culturais relativas à estabilidade social.

3.2 O espaço doméstico e o controle do corpo feminino
Em Rosemary's Baby, o horror é articulado em torno da gravidez e da manipulação institucional. A protagonista é sistematicamente desacreditada, configurando narrativa que dialoga com debates emergentes sobre autonomia feminina.
A partir da perspectiva de Mulvey (1975), observa-se que o corpo feminino é enquadrado como objeto de controle e vigilância, revelando tensões estruturais de gênero.
3.3 Horror e conflito racial
Night of the Living Dead introduz elemento político explícito ao escalar um protagonista negro, interpretado por Duane Jones, em contexto de intensificação da luta pelos direitos civis.
O desfecho do filme — no qual o protagonista é morto por uma milícia branca — opera como comentário simbólico sobre violência racial e desintegração social.
3.4 Ambiguidade e instabilidade psicológica
The Haunting consolida o horror psicológico ao sustentar ambiguidade entre fenômeno sobrenatural e projeção subjetiva. Essa indefinição dialoga com a crescente crise de certezas ideológicas da década.

4. Transformações Industriais e Censura
A substituição do Código Hays pelo sistema de classificação indicativa em 1968 ampliou as possibilidades de representação de violência e sexualidade. Essa mudança institucional contribuiu para o aprofundamento temático e estético do terror, preparando o terreno para o horror explícito dos anos 1970.
5. Considerações Finais
O cinema de terror hollywoodiano dos anos 1960 não deve ser compreendido apenas como evolução formal do gênero. Trata-se de um momento de inflexão em que o horror internaliza conflitos sociais e culturais, convertendo o monstro em sintoma.
A década redefine o terror como instrumento crítico capaz de representar crises estruturais da sociedade norte-americana. O medo deixa de ser externo e passa a ser estrutural, psicológico e político.


Referências (ABNT)
CARROLL, Noël. The Philosophy of Horror: or, Paradoxes of the Heart. New York: Routledge, 1990.
MULVEY, Laura. Visual Pleasure and Narrative Cinema. Screen, v. 16, n. 3, p. 6–18, 1975.
WOOD, Robin. Hollywood from Vietnam to Reagan. New York: Columbia University Press, 1986.




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